Era um dia como todos os outros. Tinha acabado se sair das aulas e, por alguma razão, estava sozinha a andar no caminho para casa. Fiz um desvio, não sei muito bem onde, e fui parar a uma rua totalmente desconhecida por mim. Estava deserta (apenas havia uma caixa de cartão fechada no meio do chão de pedra), e pressentia que algo ia acontecer ali, sinceramente, nem sabia o quê. Já é tão rotineiro ter desses “feelings” que simplesmente ignorei e voltei as minhas costas para a rua, na esperança de encontrar o caminho de volta.
Continuava a andar, mas nada…nada me era familiar. Parecia que nunca tinha passado por ali, o que soava bastante irracional tendo em conta que só poderia ter sido aquele o meu caminho pois era uma rua com apenas um sentido, sem qualquer desvio.
Dei por mim na mesma rua, a olhar para a mesma caixa de cartão abandonada, desejando que alguma vítima curiosa a abrisse. “Talvez essa vítima seja eu…” pensei por alguns segundos enquanto debatia se seria certo abrir ou tocar em algo que estivesse naquele sítio. Sentia que não tinha outra opção dadas as circunstâncias de estar total e inequivocamente perdida.
As minhas mãos tocaram, uma de cada vez, na borda da tampa enquanto cuidadosamente a levantava. Com medo, tive o idiota impulso de acabar com a terrível curiosidade e arrancá-la. De dentro apenas saia fumo. Se fiquei assustada? Claro que fiquei…parecia que a caixa estava a arder e tinha a plena noção que isso era impossível.
Passado um tempo infinito e indeterminado, a fumarada dissipou e, dentro do recipiente, encontrava-se uma folha A5 com uma caneta ao seu lado. Na folha apenas estava escrito “Escreve 4 que eu concedo-te”. Naquele momento pareceu-me muito menos ridículo do que agora que to estou a contar. Mas que quereria pedir? Um mundo melhor? Que acabassem a guerra?
Peguei delicadamente na caneta e na folha e, após um tempo de reflexão interior escrevi com a minha caligrafia o número um, seguido de um ponto que mais parecia um círculo, um espaço, um número dois, outro espaço, o número três, e finalmente o último número:
1. Quero ser mais forte e capaz de ultrapassar tudo sem derramar uma só lágrima;
2. Quero ter a coragem de mudar o Mundo, apesar de ser apenas uma, e de o moldar ao que acho ser a melhor realidade;
3. Quero viver para sempre ao lado de quem mais amo;
4.(…)
O quarto foi o mais complicado, também não era de esperar, era o último. Senti algo a tocar-me nas pernas, mas ignorei e, já mais lúcida de mim e do que se estava a passar à minha volta, escrevi finalmente:
4. Quero acordar deste sonho.
Apenas me lembro de dobrar o papel e pô-lo dentro da caixa novamente, o que aconteceu posteriormente é uma incógnita pois, tal como pedi, os meus olhos abriram-se e encontrei-me novamente no mundo real, a minha cabeça enterrada na almofada e o meu gato em cima das minhas pernas como que se eu fosse uma cadeira.
E perguntas: “Como é que te apercebeste que tudo aquilo era um sonho quando, normalmente, o ser humano não o percebe e age segundo o que se está a passar sem minimamente raciocinar?”. Eu respondo: “Não preciso de uma folha de papel que concede desejos para que, tudo o que escrevi seja, de facto, a realidade. Apenas preciso de uma coisa - de mim, pois só eu é que consigo concretizar todos aqueles pontos. E como me apercebi que era um sonho? Senti o meu gato a ajeitar-se em cima de mim”.
Ana